2026 chegou sem tréguas. A União Europeia enfrenta uma convergência de crises que testa os fundamentos do projeto europeu: a guerra na Ucrânia sem fim à vista, uma economia a recuperar a dois ritmos - o centro industrial alemão em contração, o Sul a resistir pelo turismo e serviços -, e o avanço eleitoral de forças que não escondem o desejo de desmantelar por dentro aquilo que não conseguiram derrotar por fora. O grande desafio não é apenas geopolítico. É de narrativa. A Europa tem dificuldades de se explicar às gerações mais jovens. A paz que justificou décadas de integração é hoje um dado adquirido, não uma conquista. E quando tudo é garantido, nada é defendido. A soberania tecnológica, a transição climática e a defesa coletiva - os três pilares do “novo ciclo” europeu - exigem investimento real e político contra o imediatismo eleitoral. É preciso visão e capacidade de mobilizar recursos e vontades. Esse é o paradoxo que Bruxelas ainda não resolveu.
Há uma forma de conformismo que não se apresenta como tal. Nos Açores, a fraca participação política e cívica não é apenas apatia - é, muitas vezes, medo. Medo de represálias, medo de ser catalogado. A democracia insular tem uma textura própria: as distâncias são curtas e a memória é longa. Quem assina uma petição pode ver o seu nome comentado. Quem critica o poder, ou se candidata contra a posição, arrisca mais do que votos, arrisca relações. Este ambiente de (auto)censura sufoca o associativismo, empobrece o debate público e cristaliza o poder. Mas o medo, com ou sem razão, não se pode tornar conforto e há quem o use como cobertura para uma posição bem mais cómoda: ficar à margem, em segurança, a criticar em surdina ou sob o anonimato quem arrisca, quem participa, quem erra porque tenta. Essa postura - a da tribuna invisível - não é coragem contida. É uma forma diferente de abdicação, tão paralisante para a vida democrática quanto o silêncio forçado. Não basta queixar-se da abstenção: é preciso nomear o que também a produz e ser honesto sobre quando o medo é genuíno e quando é apenas o disfarce elegante de quem, afinal, ainda que legitimamente, se recusa envolver.
Ponta Delgada tem tudo para ser uma cidade notável. Tem o que não se compra: paisagem, identidade, escala humana. E desperdiça-o com uma gestão que é um hino ao imobilismo, que só quer manter tudo mais ou menos como está. A Avenida Infante D. Henrique, cartão de visita de quem chega de avião ou de barco, é um símbolo do problema: passeios ocupados por carros, espaço público que não convida, que não protege, que não representa nem envolve. Uma cidade que tolera isso na sua principal montra não tem ambição para o resto. A iluminação pública é má. O mobiliário urbano é genérico. A oferta cultural é intermitente. E a resposta política é sempre a mesma: contenção orçamental, processos em curso, estudos a decorrer. Uma autarquia sem rasgo. Se a gestão camarária tivesse metade do empenho que revela na promoção do seu Presidente, com recurso a sucessivas páginas de publicidade institucional com a fotografia do autarca, Ponta Delgada era uma cidade vibrante. Mas, não tem e não é.
E eis que a dois anos de eleições, o Presidente do PSD/A decidiu decretar o fim da coligação. A intenção é mais do que óbvia. José Manuel Bolieiro quer eleições antecipadas e deseja que ocorram o quanto antes. Julga que, com elas, se livrará das falhas da sua governação, expiando as suas culpas nos parceiros da coligação e esperando, assim, almejar a maioria absoluta que os açorianos sempre lhe negaram. Bolieiro é mestre na vitimização política, mas os maus resultados da sua governação têm nele o principal responsável. Resta saber como reagirão CDS e PPM à tentativa do célebre “abraço do urso”. Uma coisa é certa: a coesão governativa que já não era famosa é, agora, um inconseguimento.